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O irresistível prazer da imaginação (Por que gostamos do que gostamos?)

Postado por em Friday, 17 September 201051 Comentários

Como um homem adulto gasta o seu tempo de lazer? A resposta pode surpreender você. A atividade voluntária mais comum não é comer, beber álcool ou tomar drogas. Não é socializar com os amigos, participar de esportes ou simplesmente relaxar com a família. Embora às vezes as pessoas descrevam o sexo como o seu ato mais prazeroso, estudos de gestão de tempo apontam que o ser humano adulto médio (no mundo ocidental) dedica apenas quatro minutos por dia para o sexo.

A nossa principal atividade de lazer é, de longe, participar em experiências que nós sabemos que não são reais. Quando estamos livres para fazer o que queremos, nos recolhemos à imaginação, para mundos criados por outros, como os livros, filmes, jogos, vídeo e televisão (mais de 3,5 horas por dia para o brasileiro médio), ou para os mundos que nós mesmos criamos, como, por exemplo, quando estamos imersos em nossos próprios devaneios e fantasias. O mais interessante é que esse fenômeno não está restrito apenas ao homem brasileiro, estudos nos EUA, na Inglaterra e no resto da Europa encontram uma obsessão similar com o irreal.

Convenhamos, esta é uma maneira no mínimo estranha de um animal passar os seus dias. Certamente seria melhor desfrutar de atividades mais “reais” – comer, beber e fornicar, estabelecer novos relacionamentos, construir abrigos, ou ensinar às nossas crianças -. Em vez disso, aos dois anos de idade fingimos ser leões, os alunos de pós-graduação ficam acordados a noite toda jogando videogames, os pais mais jovens se “escondem’ dos seus descendentes para ler romances, e muitos homens passam mais tempo vendo pornografia na Internet do que interagindo com mulheres reais. Para muitos é difícil entender por que as pessoas optam preferencialmente por assisti ao show de televisão Friends (Amigos), em vez de passar esse tempo com amigos reais?

A resposta para esse enigma, de acordo com alguns estudiosos do comportamento humano, é que os prazeres da imaginação existem porque sequestram sistemas mentais originalmente criados para o prazer do mundo real. Nós gostamos de experiências criativas, porque em algum nível não conseguimos distingui-las das reais.

A capacidade para o prazer imaginativo é universal e surge no início do desenvolvimento psicomotor. Todas as crianças normais, em todos os lugares, gostam de brincar e de fingir. Claro que existem diferenças culturais no tipo e na frequência dos jogos imaginativos. Uma criança em São Paulo pode fingir ser um avião, uma criança em New York pode preferir brincar de Cowboys contra índios. Em algumas culturas, o jogo imaginativo é incentivado, em outras não. Mas o fato é que o jogo imaginativo sempre estará presente. Digo mais, os jogos imaginativos são tão inatos à condição humana que a sua ausência pode ser considerada como um sintoma de algum problema neurológico. Só para dar um exemplo, a falta de jogos imaginativos em crianças é um dos primeiros sintomas de autismo.

Os psicólogos do desenvolvimento têm estudado há muito como as crianças lidam e distinguem entre situações pretensas e a realidade. Hoje, já se sabe que as crianças de 4 anos de idade tendem a ter um entendimento sobre pretensão e realidade relativamente sofisticado. Até mesmo crianças mais novas conseguem distinguir com relativa facilidade uma encenação da realidade. Uma criança de dois anos que vê o pai rugindo como um leão rondando à sua volta, poderia sair correndo com medo, mas ela não age assim, de alguma forma ela compreende a encenação do pai. É interessante notar que o prazer pelo convívio social nas crianças, quase sempre surge à partir de tais atividades.

Claro que esta ainda é uma questão em aberto. No entanto, há alguns trabalhos experimentais intrigantes explorando esse tema. Um dos principais estudiosos do assunto é o psicólogo Paul Bloom, professor de psicologia e ciência cognitiva da Yale University. Bloom é o autor do livro How Pleasure Works: The New Science of Why We Like What We Like (Como Funciona o Prazer: a Nova Ciência do por que Gostamos Daquilo que Gostamos), uma das mais instigantes obras já publicadas sobre o tema.

Para Bloom mesmo os bebês mais novos têm alguma compreensão de pretexto, que pode ser facilmente percebida à partir da própria interação casual.

Em sua obra e na entrevista concedida ao jornalista Lucas Mendes do programa Milênio da GloboNews (no vídeo abaixo), ele tenta fornecer respostas para as seguintes perguntas: Por que sentimos tanto prazer através da imaginação? Não é estranho que as crianças apreciem e entendam tão cedo um comportamento tão complexo como a pretensão? ou ainda, porque as crianças e os adultos se comovem tanto com histórias cujos acontecimentos e personagens eles sabem não existir?

Em seu livro, Bloom dá algumas dicas que nos ajudam a decifrar esse enigma: “As emoções desencadeadas pela ficção são muito reais. Quando Charles Dickens escreveu sobre a morte de Little Nell na década de 1840, as pessoas choravam. Tenho certeza que a morte de personagens na série Harry Potter também levou às lágrimas muitos leitores e expectadores. Um amigo meu me disse que ele não consegue se lembrar de alguém que ele tenha odiando tanto quanto ele odiava um dos personagens do filme Trainspotting, e há muitas pessoas que não conseguem suportar certas experiências fictícias porque as emoções que elas evocam, são muito intensa. Eu tenho minha própria dificuldade com filmes em que o sofrimento dos personagens é muito real”, afirma Bloom.

“Essas respostas emocionais são geralmente suaves em comparação com a coisa real. Assistir a um filme em que alguém é comido por um tubarão é menos intenso, emocionalmente falando, do que ver alguém realmente ser comido por um tubarão. Mas em todos os níveis -fisiológicos, neurológicos, psicológicos -, as emoções são reais”.

Isso sugere que as pessoas acreditam, em algum nível, que aqueles acontecimentos são reais? Será que às vezes realmente acreditamos que aqueles personagens e eventos fictícios podem ocorrer no mundo real? Será que mesmo quando temos consciência de que algo é ficcional, há uma parte de nós que acredita que é real?

De acordo com Bloom, de fato uma parte de nós acredita que aqueles eventos fictícios (por mais absurdos que eles pareçam) de alguma forma podem acontecer, e vem justamente daí o engajamento emocional, muitas vezes desproporcional à luz da razão.

De fato, a dificuldade para separar a realidade da ficção pode ser mais difícil do que imaginamos. Vários estudos recentes mostram que a leitura de um fato – sabidamente fictício – em uma história, aumenta a probabilidade de que as pessoas acreditem que aquele fato seja verdadeiro. E isso faz sentido, porque as histórias geralmente são percebidas como mais verdadeiras. Se você está lendo um romance que acontece em Londres no final da década de 1980, você vai aprender muito sobre como as pessoas, naquele tempo e lugar, falavam um com o outro, o que comiam, como se divertiam, e assim por diante, porque qualquer contador de histórias decente tem de incluir estas verdades como pano de fundo para a história. O conhecimento médio das pessoas sobre escritórios de advocacia, salas de emergência, polícias, prisões, submarinos e ataques da máfia não está enraizado na experiência real ou relatórios não-ficcionais. É baseado nas histórias. Alguém que assistiu programas policiais na televisão, certamente absorveu muitas verdades sobre o trabalho policial contemporâneo (“Você tem o direito de permanecer em silêncio…”). De fato, muitas pessoas procuram determinados tipos de ficção (romances históricos, por exemplo), porque eles querem encontrar uma maneira indolor de aprender sobre a realidade.

Muitas vezes nós vamos longe demais na confusão entre realidade e fantasia. A publicação de O Código Da Vinci, por exemplo, levou a uma grande expansão da indústria turística na Escócia. As pessoas, baseadas na história de Dan Brown, queriam conhecer o local onde se encontra o Santo Graal. Além disso, há o problema específico de atores confundidos com os personagens que interpretam. O ator Leonard Nimoy era freqüentemente confundido com o seu papel mais conhecido, o Sr. Spock, do planeta Vulcan, na série Star Treck. Aqui no Brasil, não são poucos os casos relatados por atores de televisão que são atacados nas ruas por pessoas enfurecidas com os personagens que eles estão interpretando na novela das oito. Esse comportamento demonstra claramente que há mesmo uma indefinição ocasional entre fato e realidade.

Por que, então, nós humanos ficamos tão comovidos com o irreal?

Uma passagem do livro de Bloom, nos fornece algumas respostas para essa pergunta:

“David Hume conta a história de um homem que está pendurado em uma gaiola de ferro presa em uma torre muito alta. Ele sabe que está perfeitamente seguro, mas, ainda assim, ele “não consegue parar de tremer.” Montaigne dá um exemplo semelhante, dizendo que se você colocar um sábio na borda de um precipício “ele deve tremer como uma criança.” A filósofa Tamar Gendler, descreve o Grand Canyon Skywalk (foto abaixo), uma passarela de vidro que se estende 70 pés da borda do cânion. Passear sobre ela certamente é uma experiência emocionante. Tão emocionante que algumas pessoas dirigem vários quilômetros em uma estrada de terra para chegar lá, e só depois descobrem que estão aterrorizados para andar sobre ela. Em todos esses casos, as pessoas sabem que estão perfeitamente seguras, mas mesmo assim ficam assustadas.

Para explicar esse comportamento, Gendler criou um novo termo para descrever o estado mental subjacente a estas reações: Ela chama isso de “Alief“. Crenças são atitudes que temos em resposta à forma como as coisas são. Aliefs são mais primitivos. São respostas de como as coisas parecem ser. No exemplo acima, as pessoas têm crenças que lhes garantem que elas estão seguras, mas elas também têm aliefs que dizem o contrário, e afirmam que elas estão em perigo.

Outra explicação que ajuda a entender esse comportamento foi dada pelo professor de psicologia da Universidade da Pensilvânia, Paul Rozin. Segundo ele, muitas vezes as pessoas se recusam a tomar uma sopa que lhes seja oferecida por um estranho, comer um fudge que se pareça com fezes, ou colocar uma arma descarregada em sua cabeça e puxar o gatilho. Gendler observa que a crença é: A mulher é limpa, o fudge é lorota, a arma está vazia. Mas o Alief é estúpido, e grita, “objeto sujo! Objeto perigoso! Fique longe!”

As tecnologias da imaginação

Mas existem também alguns recursos interessantes da imaginação. Assim como os adoçantes artificiais podem ser mais doces que o açúcar, eventos irreais podem ser mais comoventes do que os reais. Para Bloom, existem pelo menos três razões para isso.

Primeiro, as pessoas fictícias tendem a ser mais espirituosas e inteligente do que amigos e familiares do mundo real, e suas aventuras são geralmente muito mais interessante. Nosso mundo real não inclui um policial ferido perseguindo e derrotando heroicamente um serial killer, uma prostituta que luta para salvar o mundo da destruição, ou um vampiro belíssimo e de boa índole. Falando por mim, posso dizer com certeza que nenhum dos meus amigos já matou seu pai e depois se casou com a sua própria mãe. Mas mesmo sem ter experienciado isso na vida real, eu posso entender o comportameto de todas essas pessoas imaginárias quando me deparo com elas nos diversos mundos criados pelas tecnologias da imaginação.

Em segundo lugar, a vida se arrasta em um ritmo lento, alternando longos períodos de camaria (onde quase nada acontece) com flash de ação. O julgamento de OJ Simpson durou meses, e para muitos foi extremamente maçante acompanhar o desenrolar de toda a história do julgamento. A ficção por sua vez, como diria o crítico Clive James: “É a vida sem os bits maçantes. A ficção condensa a parte instigante da história.” Esta é uma razão porque para muitos o seriado Friends é mais interessante do que os amigos do mundo real.

Finalmente, as tecnologias do imaginário fornecem estimulos de um tipo que é impossível encontrar no mundo real. Um romance pode abreviar o tempo entre o nascimento e a morte em poucas páginas. Pode mostrar como a pessoa se comporta em situações que você nunca poderia observar de outra forma. Você nunca vai realmente saber o que uma pessoa no mundo real está pensando, por sua vez em uma história fictícia, o escritor pode lhe dizer.

Assim, enquanto a realidade tem o seu fascínio especial, as técnicas imaginativas de livros, peças, filmes, mundos virtuais e televisão têm seu próprio poder. A coisa boa é que temos algumas escolhas. Podemos obter o melhor dos dois mundos, por exemplo, podemos ter um evento que as pessoas saibam que é real e utilizar nele as tecnologias da imaginação para transformá-lo em uma experiência que seja muito mais interessante e poderosa do que na percepção normal da realidade ele poderia ser. O melhor exemplo disso é uma forma de arte inventada recentemente, conhecida como Televisão da Realidade. Uma forma de arte poderosa e viciante como uma droga, como mostra o sucesso de séries como Big Brother Brasil, Astros, No Limite, Hipertensão, A Fazenda e a mais recente Busão do Brasil.

E o que eu tenho a ver com isso?

Você deve estar se perguntando: por que isso é tão importante? Por que o entendimento do funcionamento dos mecanismos humanos ligado ao prazer é tão importante para o meu negócio?

A resposta é simples: Desvendar os mistérios do prazer tem implicações em todas as cadeias de negócios existentes. Saber por que as pessoas gostam daquilo que gostam, pode revelar caminhos para a construção de ofertas de valor mais interessantes e lucrativas. Por que alguém paga 4 mil dólares por um relógio ou 48 mil dólares por uma fita métrica que pertenceu ao ex-presidente J F Kennedy ? Onde está o prazer nesse tipo de consumo? E mais, do canibal ao vegetariano, do sexo à educação, do esporte à religião, das interações digitais ao mundo analógico, enfim, em qualquer contexto, é necessário entender onde se esconde o nosso prazer.

Portanto, não se engane, essa é uma discussão que diz respeito diretamente a sua atividade, não importa em qual ramo da economia você atua, ou mesmo a natureza do seu negócio (público ou privado). Como sempre costumo dizer, todos os produtos de sucesso indistintamente tem em comum pelo menos uma dessas características: ou proporcionam prazer ou aliviam alguma dor. Dessa maneira, saber como funciona o prazer das pessoas com quem você e a sua organização se relacionam, deve ser uma atividade organizacional prioritária que deve ser perseguida constantemente, pois essa compreensão certamente vai aumentar as possibilidades de sucesso do seu negócio.

Hélio Teixeira é profissional de comunicação e pesquisador da Cultura Digital e dos processos comunicacionais mediados pelas novas mídias. Estudioso das tecnologias sociais digitais e dos mecanismos agregadores de inteligência coletiva em ambientes digitais. Participante ativo, com contribuições destacadas, em diversos fóruns acadêmicos de discussão da temática da Comunicação mediada por meios digitais nos Estados Unidos e na Europa. Atualmente dedica boa parte do seu tempo ao estudo da Psicologia Social aplicada ao que ele chama de “ambientes visuais-deliberativos digitais”.
Editor do Blog Chapa Branca. Veja os artigos já publicados por ele. Siga ele no Twitter!

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