Conheça o e-Democracia
Na próxima quarta-feira (03 de junho), a Câmara dos Deputados vai lançar a rede social e-Democracia. Trata-se da primeira grande incursão da Câmara Federal na chamada web social. Com o objetivo de ampliar o debate sobre os projetos de lei em tramitação na Casa, o sistema entra para a História como a primeira rede social aberta do Legislativo brasileiro.
Como não poderia ser diferente, o Chapa Branca foi atrás da informação e traz agora uma entrevista exclusiva com o coordenador do Projeto e-Democracia, Cristiano Ferri. A conversa é bastante esclarecedora e, entre outras coisas, mostra o tamanho do desafio que a Câmara Federal vai enfrentar (o que se aplica a qualquer outra Casa Legislativa) para se tornar uma instituição 2.0. Confiram a entrevista:
ENTREVISTA COM CRISTIANO FERRI
CHAPA BRANCA (CB) - Quem é Cristiano Ferri Soares de Faria?
Cristiano Ferri - Sou analista legislativo e gerente de projetos da Câmara dos Deputados. Trabalho na Assessoria de Projetos e Gestão Estratégica (Aproge) e coordeno o portfólio Governança Legislativa que abrange projetos relativos à inteligência legislativa, legística (qualidade legislativa) e e-democracia (democracia digital). Sou servidor concursado da Câmara há 16 anos, tendo trabalhado em comissões permanentes e liderança de partido político, antes de ser gerente de projetos. Academicamente, sou mestre em políticas públicas pela Queen Mary College da Universidade de Londres e doutorando em ciência política e sociologia pelo IUPERJ.
CB - Como surgiu a idéia do e-Democracia?
Cristiano Ferri – Inicialmente, houve a percepção por parte da Diretoria-Geral da Câmara dos Deputados da necessidade de ampliação dos canais de debate sobre projetos de lei entre parlamentares e a sociedade civil. A partir, então, desta demanda, foi acionado o Observatório de Práticas Legislativas Internacionais, um centro de pesquisa sob minha coordenação que tem como objetivo fazer prospecção de boas práticas legislativas mundo afora. A partir do mapeamento de experiências de democracia digital (ou eletrônica, que prefiro chamar de e-Democracia), verificamos não haver nada muito específico sobre participação digital para fins legislativos que realmente permitisse uma interação do tipo web 2.0.
Daí, começamos a construir a nossa própria ferramenta. A idéia era desenvolver uma ferramenta que viabilizasse o máximo de interação, com a possibilidade de fazer gestão do conhecimento necessário para o trabalho legislativo. O e-Democracia é, pois, um conjunto de ferramentas digitais que estimulam a troca de conhecimento, tais como fóruns dinâmicos, chats, biblioteca digital com estudos e informações, íntegra dos projetos de lei em discussão, notícias, conteúdo em áudio e vídeo, enquetes, calendário de eventos, além do Wikilégis, uma ferramenta peculiar que visa permitir a interação avançada. Decidimos que, antes de estabelecer uma ampla plataforma para permitir o uso em larga escala na Câmara dos Deputados dessa forma de participação digital, deveríamos testar tudo isso num caso. O Portal e-Democracia vai iniciar seus trabalhos com um dos temas de maior interesse social e forte impacto na agenda legislativa atual: a Política Nacional de Mudança do Clima.
CB – Quais os objetivos do projeto?
Cristiano Ferri - O e-Democracia é um espaço virtual, interativo, dinâmico, com interface amigável, criado para estimular cidadãos e organizações civis a contribuir para o processo legislativo, por meio do compartilhamento de idéias e experiências.
O Portal e-democracia permite à sociedade brasileira participar do processo legislativo pela Internet, da seguinte forma:
- Compartilhamento de informações, experiências e documentos úteis para a discussão dos projetos de lei;
- Participação nos fóruns de discussão oficial;
- Organização de rede sociais temáticas para fins legislativos;
- Apresentação de propostas de texto legislativo, construídos de forma colaborativa, a fim de subsidiar o trabalho dos deputados na tomada de decisão.
Seus principais objetivos são:
- Melhorar a interação entre sociedade e Câmara dos Deputados;
- Fortalecimento do papel do Poder Legislativo na formulação de políticas públicas;
- Estímulo da participação social responsável e construtiva;
- Melhor compreensão da complexidade do trabalho legislativo.
Sobre o piloto mudança do clima, a expectativa é que a participação da sociedade viabilize a consolidação das propostas em um texto que represente, de forma equilibrada, a visão dos vários segmentos sociais interessados no tema.
Ao abrir a discussão em torno da Política Nacional de Mudança do Clima, a Câmara pretende ainda construir, de forma coletiva, um relatório que será discutido durante a Conferência Mundial das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP15), que acontecerá, em dezembro deste ano, em Copenhague.
CB – Um dos maiores desafios enfrentados por instituições públicas em suas incursões no mundo da web 2.0 é o que fazer com relação aos comentários postados pelos usuários. Como vocês vão tratar esta questão? Já existe uma política definida?
Cristiano Ferri - Em suma, o principal produto do projeto e-Democracia é a reunião de informações estratégicas que possam servir de subsídio para a tomada de decisão dos parlamentares a respeito da elaboração legislativa.
Depois de meses de conversas, reuniões e entrevistas com gestores experientes da Câmara dos Deputados, deputados, representantes de grupos de interesse e especialistas, definimos uma política para o uso de todo o conteúdo a ser formulado.
Há no e-Democracia basicamente duas ‘arenas’ de discussão:
a) os fóruns temáticos, relativos às discussões sobre os projetos de lei. A atuação de um esquema de moderação (de forma e conteúdo) refinado será crucial para a depuração e o foco da discussão. Compilações periódicas serão realizadas com a síntese das discussões, com o objetivo de depuração da discussão desde o início.
b) além disso, a participação poderá se concretizar no Wikilégis, onde os participantes da comunidade serão convidados a transformar suas idéias em texto legal. É uma forma de forçar uma participação responsável e útil que gere resultados concretos, no caso a elaboração da lei.
Por meio de um ambiente wiki colaborativo, os ante-projetos poderão ser elaborados para servir de sugestão aos deputados e também como forma concreta de expressão de opinião sobre o tema.
De forma bem objetiva, o produto final da discussão será um relatório com toda a discussão dos fóruns e suas compilações, e os textos propostos no Wikilégis.
CB – Quem fará esse julgamento?
Cristiano Ferri - Como todo o conteúdo da discussão será disponibilizado para os deputados e o público em geral, não há que se falar em julgamento. Mais do que isso, o público terá acesso online a toda discussão. Pensamos também que, por meio de enquetes e sistemas de ranqueamento, a própria comunidade virtual legislativa selecionará as melhores propostas e melhores idéias, sendo essa seleção apenas mais uma informação útil para os deputados decidirem.
CB - O que será feito com o conteúdo gerado pelo usuário nas discussões travadas no E-Democracia? Como esse material vai “tramitar” dentro da Casa?
Cristiano Ferri - Esse relatório referido na resposta da pergunta 4 será disponibilizado para todos os deputados, como informação estratégica essencial para a tomada de decisão. Vale ressaltar, no entanto, isso é muito importante: a decisão de como o texto vai ficar será sempre dos deputados, cabendo à sociedade participativa apenas apresentar sugestões e expressar sua opinião. É para isso que serve o projeto e-Democracia: a obtenção de informações estratégicas para os deputados poderem melhor compreender o problema o qual se visa atacar por meio da lei, e obter as diversas opiniões da sociedade sobre isso. Mas apenas os deputados são legitimados e capazes de decidir, pois foram eleitos para isso.
CB - Quantas pessoas estarão diretamente envolvidas na gestão do conteúdo do E-Democracia?
Cristiano Ferri - Não sei precisar o número exato. Mas para o projeto-piloto da Política Nacional de Mudança do Clima, há cerca de 10 moderadores de conteúdo, especialistas de grande respeitabilidade no assunto e 3 consultores legislativos experientes em formulação de políticas na área ambiental, além de outros colaboradores.
CB – Quando o assunto é web 2.0, a agilidade em responder as demandas, e a rapidez das interações e trocas de informações são fatores críticos e determinantes para uma experiência satisfatória do usuário. Como vocês vão enfrentar o desafio de transformar uma instituição cheia de normas e regulamentos como a Câmara Federal numa instituição “2.0″?
Cristiano Ferri - É importante frisar que a interação web 2.0 que se pretende por meio do Portal e-Democracia é a participação digital para fins de elaboração de grandes leis, a base jurídica de políticas públicas de abrangência nacional. Esse tipo de experiência deverá se concentrar apenas em algumas leis, nas mais importantes. Outros mecanismos de web 2.0 surgirão a partir do e-Democracia, mas por enquanto estamos focando nessa experiência, que fazemos com o maior cuidado para se avaliar paulatinamente como desenvolver esse processo. De qualquer forma, tudo deverá ser feito com certo vagar, para que a Câmara se adapte a isso.
CB - Qual a sua maior satisfação como coordenador deste projeto?
Cristiano Ferri - Primeiramente de contar com o apoio político da atual Mesa-Diretora da Câmara, em especial o Presidente Michel Temer e do apoio incondicional da chefia administrativa, composta por pessoas de grande visão, como o Sr. Sérgio Sampaio, Diretor-Geral, grande patrocinador do projeto, e a Srª Cássia Regina, Diretora da Assessoria de Projetos e Gestão Estratégica da Câmara, chefe imediata que garantiu todas as condições para a idéia ser viabilizada. Também a grande satisfação de contar com uma equipe detentora de experiências, conhecimentos e talentos diversificados, como Rafael Godoy e Felipe Gubert, especialistas em gestão do conhecimento e comunidades virtuais, entre outros que fizeram a diferença, pois os desafios até aqui foram enormes. Além de lidar com o engessamento institucional que qualquer órgão da administração pública sofre hoje em dia, o mais difícil foi enfrentar a cultura conservadora que dificulta a interação maior entre instituição e sociedade.





Um tema perfeito para se discutir nessa nova ferramenta seria o projeto de lei que trata dos crimes na Internet, do Senador Eduardo Azeredo:
http://www.camara.gov.br/sileg/MostrarIntegra.asp?CodTeor=588033
Ele é muito criticado pelo Sérgio Amadeu e por tantas outras pessoas na Internet e poderia receber muitas contribuições:
http://samadeu.blogspot.com/
Parabéns pelo projeto, ele mostrará o caminho para o restante das instituições públicas no país!
Jean,
Ótima sugestão de tema. O projeto do senador Eduardo Azeredo tem uma porção de equívocos e poderiam muito bem ser discutidos nesta nova ferramenta.
Parabéns ao Cristiano pelo projeto, a idéia é muito boa!!!
Este software tem seu código aberto?, assim as câmaras municipais poderão adotar também…
Ariston,
Segundo informações do pessoal de TI da Câmara. A versão atual do e-Democracia da ferramenta não foi desenvolvida na Câmara.
Ela foi adaptada a partir de uma plataforma comumente utilizada para aplicações de ensino a distância: http://dotlrn.org/.
A versão definitiva, a ser desenvolvida no segundo semestre, será baseada em Zope/Plone, esta sim uma ferramenta livre.
Mesmo assim, vamos aguardar que o pessoal da Câmara se manifeste oficialmente para sabermos maiores detalhes da ferramenta atualmente utilizada. Assim que tivermos novidades te aviso.
Grande abraço,
Hélio Teixeira
Ótima questão essa levantada pelo Ariston. A ferramenta atual tem o código aberto? Se tiver temos interesse de utilizá-la aqui em Curitiba.
Abraço,
Também tenho interesse de implantar algo semelhante aqui em Fortaleza.
Cristiano,
Parabéns pelo seu trabalho
A troca de informações da câmara com a população certamente colherá bons frutos.
Att
Olá,
Qualquer forma de ampliação da democracia, desde que exercida efetivamente, e não apenas parte de discursos de palanques políticos, vem em ótima hora.
Parabéns pelo projeto!
Vamos tornar crimes de improbidade administrativa inafiançável e imprescritível. Essa plataforma eletrônica (e-Democracia) poderia ser o elo que estava faltando para futura e intensa pressão popular, sem intermediários.
Muito sucesso e novamente, parabéns.
Juliano.
Meu nome é Felipe Gubert e sou o responsável tecnológico pelo portal. O software utilizado foi o OpenACS/DotLRN. A solução é 100% software livre. Após o periodo de testes com a comunidade piloto, vamos tomar algumas decisões e pretendo levar aos coordenadores a idéia de termos um espaço para outras comunidades. Assim que for possível estaremos colocando o código na plataforma do software público. Qualquer dúvida meu email é felipeggubert@gmail.com. [ ]‘s
Bastante interessante a iniciativa da Câmara dos Deputados,e parabéns por confiar a tarefas a pessoas capazes e confiáveis como o Cristiano Ferri.
Espero que o projeto seja bem sucedido, assim ganhamos todos com mais este canal interativo. E que saibamos aproveitá-lo a contento.
Bem interessante este projeto, além de ser interativo ao mesmo tempo. Assim que estiver totalmente concluída esta ferramenta poderia estar sendo disponibilizada às Camaras Municipais. Sugiro ainda que o Portal “e-Democracia” possa ser tema de palestra do II Encontro Nacional do GITEC que será realizado no mes de novembro em Florianópolis. Uma oportunidade ímpar para divulgação deste grande trabalho!
Oi Patrícia,
Ótima idéia! Será ótimo se o pessoal da Câmara dos Deputados puder participar do II Encontro Nacional das Comunidades Interlegis e apresentar o sistema e-democracia lá.
Quem quiser acompanhar a organização do evento, o link é:
http://colab.interlegis.gov.br/wiki/IIEncontroGitec
Abraço,
Aí vai uma crítica construtiva ao recém lançado e-Democracia:
“e-Democracia, porque a Rede Social da Câmara não vai funcionar?”
http://taticapolitica.blogspot.com/2009/06/e-democracia-porque-rede-social-da.html
[...] noticiamos dias atrás, a Câmara dos Deputados lançou, no último dia 3 de junho, a rede social [...]