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Do início ao fim com o meio infinito

Postado por Jean Sestrem em Quinta-feira, 27 Agosto 2009Um Comentário

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Hoje pela manhã, ao ver o sol surgindo atrás do mar, pintando de ouro a aurora e dissipando do ar a neblina turva, abrindo brilhante o espelho marinho entre meio as barras de acesso ao Porto, resolvi puxar da caneta para traçar um mapa da vida. Um triênio e tanto se passou aonde aprendizado, perdas, construção, trabalho e amores coçavam a mão que empunhava o torpedo da tinta pra ir riscando sem esquecer uma cena que fosse. Que uma vírgula esquecida não me ceifasse a memória de um momento sequer que tenha sido sublime, magnânimo ou de aprendizado para não dizer arrependimento. Tremulo não entendia o nervosismo, pois de nada me envergonhara de ter feito ao longo dessa vida. Faltas humanas compreensíveis não poderiam impedir-me de ao menos ser honesto comigo mesmo, de ser brando ou veemente se a necessidade da consciência se prostrasse diante do papel, e o repentino fervor no rosto denunciasse algo que ainda não aflorado na mente com clareza denunciasse algum erro vergonhoso de um passado de tempo cronometradamente passado passo à passo. Não posso eu mentir à mim mesmo diante da verdade da consciência, por isso devo não refletir na forma que escrevo, mas que indiferente do modelo gramatical aplicado, que as palavras não sejam meramente coloquiais em vislumbre de se ter uma bela e bem escrita biografia, esta que com certeza apodreceria em uma prateleira empoeirada nos arquivos de família, recheada da hipocrisia que entorpece os que usaram até hoje a caneta para imortalizar o já há muito tempo morto pela cortina de fumaça diante do espelho.

Do dia que nasci, até hoje, lembrar do que? O que interessa a quem virá para imortalizar os mortos? O que querem saber de mim esses paranóicos capitalistas que só pensam e iphone, Playstation, conectividade, smartphone e MSN? Não consigo pensar no que quer saber um universitário de vinte anos em 2029. Mas quero ser fiel ao que meus olhos viram, meus ouvidos ouviram, minha epiderme sentiu e ao que minha memória lembra. Sendo assim, falar de mim seria olhar para dentro e ativar os sentidos externos citados. Não quero falar de mim, mas do que aprendi, do que vivi, do que meu tempo permitiu participar. Assim acho que posso contribuir mais, pois talvez fazendo o que eu digo, e não o que fiz, posso burlar a hipocrisia e não fantasiar o que de verdade fora filtrado por todos esses sentidos ao longo dos anos nessa transição maluca e veloz entre modelos de governo, tiranias, crimes, salvações, tecnologia entre outras revoluções que de tão presentes são quase que diárias nos dias modernos.

Meus conceitos de contribuir para as gerações futuras, são golpes na vaidade, pois dizer o que fiz não teria o mesmo efeito em dizer o que aprendi de fato. O aprendizado faria com que os maníacos pelo mundo moderno, de velocidade alucinante, não perdessem o tempo em ler a narrativa dos erros que cometi, mas sim o aprendizado que me proporcionaram e os resultados obtidos com este aprendizado. Assim sendo, dispensando as vaidades, posso com mais objetividade ajudar os enjaulados pelo consumismo desenfreado e pelo tempo cada vez mais curto para não se fazer nada apesar de tudo que se faz no vácuo do nada que se resulta do tempo particular nas mãos do bombardeio de informações que se encontra em milésimos de segundos. Ufa!!! Poderia eu resumir isso em uma frase ou palavra? Poderia eu resumir esse sentimento pórtico para distribuir em apenas 140 caracteres de um twitter e com isso contribuir com a humanidade? Entenderiam as gerações futuras que o importante é alguém entender que o que vale não é o nome do RG, mas sim o que o fulano aprendeu para que possam encurtar caminhos cada vez mais curtos quase invisíveis e reduzidos a bits e bytes?

O fim da biografia com nome e sobre nome para o tutorial funcional da vida moderna, aonde apreciamos os abreviados modelos e de preferência com imagens que trocamos por mil palavras para entender um movimento corporal que seja. Um cotidiano que mais parece uma moto serra rompendo o sólido e palpável para o inimaginável mundo real que a cada dia se torna mais vital ao ser humano. O intangível com corpo real, odor real, cotidiano viral de uma rosca sem fim para uma viagem no tempo curtíssimo como o raciocínio, o calculo ou mesmo o diálogo formal de retinas grudadas no objetivo biônico de se convencer da mentira que se vive como verdade absoluta. Relações familiares prostituídas pelo tempo, pela conquista material, pelo profundo ciclo da vida virtual inconsciente de um ser cada dia mais técnico, sábio e inútil do ponto de vista natural. O ser humano, no mundo de hoje, quanto mais trabalha, menos é pai, irmão, filho, sobrinho, primo, sogro, genro, sogra, nora e por ai vai. Para quê trabalhamos tanto, para quem? Quem ganha com isso? Se falamos ao telefone e ganhamos dinheiro o dia inteiro, em cada vez maiores cargas horárias, como podemos ser seres humanos? Como ser tudo que deixamos de ser em busca da virtualização de nossas relações? Um pai que fala com o filho através do MSN, que este lhe pede carga de crédito num cartão bancário que o pai dá três cliques e carrega o tal cartão para o filho virtual gastar com coisas virtuais fúteis é um pai real? Um pai que através de vídeo conferência no portal de relacionamentos da escola participa de uma reunião, ou o fórum de discussão da educação de seu filho é um pai real? Balela de antiquado? Será? Aonde essa rosca vai parar? Poderemos nós sobreviver ao descontrole que criamos das relações para achar que controlamos através dos meios? Os meios foram definitivamente trocados pelos fins, e os meios se tornaram infinitos, pois os fins estão intangíveis, pois de redondo foram feitos, e giram sem parar, sem fim. O ser humano moderno conseguiu, resumindo em uma twitada apenas, colocar entre o início e o fim, espetacularmente, o infinito.

Jean Carlos Sestrem, é consultor em TI Pública, ex-coordenador de TI Assembléia Legislativa de Santa Catarina. Secretário de Informação e Modernização Administrativa da Prefeitura de Itajaí. Escreve para o Chapa na coluna Software Público. Profissional com grande experiência no uso de ferramentas livres. Saiba mais: www.sestrem.com.br. Veja os artigos publicados por ele.

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Um Comentário »

  • Sandro Lopes says:

    Confesso já ter reflectido sobre isso, mas a verdade é que, para sobreviver nesse mundo, há-que se adaptar. E tudo depende da forma como encaramos e queremos viver. Os nossos filhos serão o espelho da nossa educação e dos valores que lhe incutimos. Tudo o resto terá de ser aceite e largar as amarras onde tiver de ser. Porque afinal tb eles são humanos e cometerão erros, e farão escolhas. Nós apenas os podemos guiar até certo ponto.
    O segredo está na nossa capacidade de resistir. Resistir às tentações que nos rodeiam, filtrar os conteúdos vazios que existem em torno de nós, absorvendo apenas aquilo que realmente será importante, que fará diferença. Há-que se defender. Pensando.
    Partilho da tua inquietação. Texto muito bem escrito. Parabéns.

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