O futuro será digital, porém…
Muito tem se falado sobre a morte anunciada da mídia impressa. São muitos os futurólogos que lhe atribuem sobrevida muito curta; outros, um pouco mais otimistas, fazem projeções um pouco melhores, mas também não hesitam em determinar o fim inexorável da letra impressa; outros, ainda, resistem a acreditar neste destino fatídico e tão radical. Sem dúvida, estou entre esses últimos.
Simplesmente, não consigo vislumbrar um mundo sem livros. Não imagino que a mídia eletrônica consiga, um dia, oferecer uma experiência multissensorial melhor, ou sequer semelhante, àquela que sintimos ao folhear um bom livro.
Apesar de acreditar que o futuro será digital, também acredito [ou pelo menos torço para que isso aconteça rsrsrs] que a mídia impressa perdurará ainda por um bom tempo, pois ao contrário do pensamento de muitos, acredito que ainda existe muito a ser explorado no meio impresso.
Vejam abaixo um uso inusitado e muito criativo da mídia impressa no trabalho do designer novaiorquino Reiner Tiangco, que ilustra muito bem o que quero dizer com: “ainda existe muito a ser explorado…”













Muito bom o trabalho desse designer. A mensagem é exactamente o não ter o pudor de “sujar as mãos”, porque essa sujidade também é produtiva. A questão digital afasta-nos cada vez mais da realidade empírica das coisas. Mesmo enquanto designer gráfico muitas vezes trabalho de tal modo afastado e com prazos tão apertados que não tenho tempo para ir sentir os papéis, sentir o cheiro das tintas, ouvir os gritos das máquinas que regorgitam as cores. Eu colecciono tipo de chumbo (caracteres metálicos em relevo espelhado usados para impressão e tipografia que ainda se usam em algumas peças de papelaria em casas mais antigas) e apesar de saber o quanto isso foi reflexo de uma era suja, poluente, era maior a envolvência no processo, valorizando o resultado. Quanto aos livros… não acredito que se extingam. É um património, um objecto de culto. Quem lê por gosto, e em qualquer sítio, gosta de sentir o mono, namorar a capa, usar o marcador para sinalizar o percurso lido, e o quanto falta… e as prateleiras de uma casa, de uma escola ou biblioteca? O quão vazia seria sem as lombadas e os tombos… somos seres racionais, mas ainda não cortámos o laços sensoriais com o mundo. Ainda reagimos aos cheiros, ao áspero e suave, ao preto e ao vermelho. De uma forma um pouco erótica até, quando o conteúdo do livro nos envolve, gostamos mais de tocar as páginas, não? O monitor fica sem magia quando não há electrões, transforma-se num buraco negro, sem vida. O livro abre sempre as portas e revela as suas entranhas, apenas precisa de luz. Quanto muito, num futuro longíquo, o livro será guardado pela memória objectual, mas não esquecido, elevando ainda mais o seu valor.
Amigo Sandro,
Assino embaixo em suas palavras. Concordo com cada uma delas.
Parabéns pelo belíssimo comentário amigo!!!