A democracia digital seria um mito?
Em uma palestra que proferi recentemente em Washington-DC, fui questionado por um dos alunos da George Washington University participantes do evento, sobre qual seria a minha opinião sobre a tese defendida pelo professor de Ciências Políticas da Arizona State University, Matthew Hindman, em seu livro “The Myth of Digital Democracy” (O Mito da Democracia Digital).
Para um melhor entendimento do assunto, sobretudo para aqueles que ainda não leram o livro, acredito ser necessário expor resumidamente as ideias defendidas por Hindman:
Hindman argumenta que: (1) Ao contrário da crença popular, a Internet tem feito pouco para ampliar o discurso político. Contrariando as noções populares sobre o discurso político na era digital, Hindman sustenta que a Internet não tem diminuído a quota de audiência da mídia corporativa, nem dado mais voz aos cidadãos comuns. Na verdade, segundo ele, a internet está apenas amplificando a voz da elite em vez de abrir espaço para as pessoas comuns, (2) a outra tese defendida por ele é a de que vivemos em uma “Googlearchy”. Um cenário governado por buscadores que concentram e canalizam a atenção das pessoas para um punhado de [mainstream] sitios e blogs editados pela elite política, composta por blogueiros e/ou editores digitais altamente educados que representam a minoria da população, e, (3) que a idéia de que a internet capacita as pessoas mais simples para que elas possam ser participantes ativos no processo político é basicamente um mito.
Antes de mais nada, há que se ressaltar que o livro de Hindman é bem escrito (tão bem escrito que “devorei” as suas 198 páginas em apenas dois dias!) e bastante provocador, mesmo que seja essencialmente errado.
Desde já, e antes de falar das minhas discordâncias, é importante afirmar que concordo com algumas afirmações feitas por ele. Vou citar algumas:
(a) Hindman está certo, por exemplo, quando afirma que existe pouco interesse em assuntos políticos por parte da maioria dos internautas em todo o mundo. Mas também é correto afirmar que, nos últimos anos, cada vez mais pessoas tem se conectado na rede em busca de informações políticas. E mais, um estudo publicados recentemente pelo Pew Internet & American Life Project, aponta para o crescimento do número de pessoas que utilizam a internet e as ferramentas da web social para criar e compartilhar conteúdo político com outras pessoas;
(b) Ele acerta também quando afirma que a maioria dos internautas não sabe usar os recursos dos motores de busca em suas pesquisas e, por isso, quase sempre só levam em consideração os primeiros sítios listados nas páginas de resultado dos motores de busca;
(c) De fato, é verdade que existe uma concentração – ou um “excesso de atenção” – direcionada para alguns poucos blogs (os chamados campeões de pagerank!) quando se busca por informações políticas na web. E também é verdade que esses blogs, quase sempre, são editados e escritos por blogueiros altamente educados e de classe média alta;
(d) Também é verdade que para se criar sítios gigantes como o Google, Yahoo! ou Bing, são necessários investimentos significativos de capital. É óbvio que se o seu objetivo é ser o próximo Google, você terá que superar uma barreira de pelo menos algumas centenas de milhões de dólares.
Meio cheio ou meio vazio?
A análise feita por Hindman tem dois pecados principais: o excesso de pessimismo e uma inegável “miopia” histórica. Sua análise não enxerga, por exemplo, os avanços alcançados nos últimos tempos em questões como transparência, redução dos custos de coordenação e a redução dos custos de produção, publicação e circulação nas mais diversas áreas da comunicação, só para citar alguns.
Hindman se equivoca ainda na conclusão da sua análise sobre que ele chama de “o mito da igualdade da mídia digital”. É óbvio que a web, tal qual a vida, não é justa. Os grandes buscadores, de fato, são dominantes. Se você tem 500 milhões de dólares para iniciar um projeto na web, é claro que você está em vantagem em relação a todos aqueles que não tem nada pra gastar. O mundo digital não é um mundo paralelo, ou uma fábula que existe apenas nas cabeças das pessoas. O mundo digital é humano, e se é humano é injusto e inevitavelmente imperfeito.
Porém, mesmo que a web não tenham ainda transformado o mundo numa utopia igualitária, onde cada pessoa é igualmente valorizada. Ainda assim, as mudanças sociais fomentadas pelas pessoas conectadas à internet estão gradualmente democratizando as relações políticas mundo afora. Talvez, não na velocidade ou com a perfeição desejadas, mas, sem dúvida alguma o que temos agora é muito melhor do que o que tínhamos antes.
Dez anos atrás as únicas pessoas que tinham a possibilidade de alcançar grandes audiências ou mesmo serem ouvidas por um grupo maior de pessoas, eram aquelas já famosas ou muito ricas que tinham acesso aos [caríssimos!] veículos de comunicação tradicionais. As vias de acesso, ou melhor, as possibilidades de acesso à arena pública eram muito restritivas: ser rico, conhecer as pessoas certas ou cair de um avião e sobreviver. rsrs
Hoje, mesmo que não haja garantia de que você vai alcançar milhões de “ouvintes”, você não precisa de milhões de dólares, ou as conexões certas, ou fama, para atingir milhões de pessoas. Você só precisa de uma mensagem coerente e convincente. Tudo bem, é claro que isso não é algo que todos tem a capacidade de fazer. Todavia, graças a internet e as suas ferramentas, a barreira à entrada na conversa pública, hoje, é muito menor.
Outra questão ignorada por Hindman em seu livro, é o papel transformador que a transparência e o acesso aos dados e informações da administração pública proporcionados pela internet podem desempenhar no fomento a processos políticos mais responsáveis. Como afirmou Clay Shirky, a informação não é poder – o acesso desproporcional à informação é poder. Quando pegamos dados políticos vitais e disponibilizamos o seu livre acesso online, em vez de obrigar as pessoas a voar para Brasília e procurar num escritório ou num arquivo empoeirado um documento impresso, que tecnicamente é público, mas na prática pouco acessível, nós alteramos drasticamente o equilíbrio do poder sobre a informação no sentido dos cidadãos comuns.
Para concluir, acho que Hindman foi no mínimo imprudente ao ser tão taxativo em suas afirmações. Acredito que é muito perigoso fazer afirmações conclusivas sobre um espaço tão jovem e dinâmico. Quatro anos atrás, o YouTube estava apenas começando. Três anos atrás o Twitter sequer existia. Estamos apenas começando a arranhar a superfície daquilo que pode acontecer quando combinamos o acesso em tempo real na Internet com serviços de localização e buscas com as ferramentas que você pode carregar em qualquer lugar no seu bolso. Ao contrário de Hindman, prefiro ver o copo meio cheio e não meio vazio, e, o mais importante, acredito na consolidação do processo que estamos presenciando atualmente, que nos conduz a passos largos na direção de uma maior e mais significativa participação de cada vez mais pessoas nos processos políticos.
Hélio Teixeira, é publicitário, editor do Blog Chapa Branca e fundador da novoDiálogo{, consultor e especialista em Comunicação Digital, palestrante renomado, estudioso das tecnologias sociais digitais e dos mecanismos agregadores de inteligência coletiva em ambientes digitais. Acredita no poder transformador da boa Comunicação. Um otimista “incurável”!!!. Veja os artigos já publicados por ele. Siga ele no Twitter!
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[...] This post was mentioned on Twitter by Blog Chapa Branca, Hélio Teixeira. Hélio Teixeira said: A "democracia digital" seria um mito? http://tinyurl.com/yjvxrv7 Ótimo debate! [...]
Concordo! Não podemos pensar que a web é um mundo paralelo e perfeito. Ele é um reflexo do mundo real, ou seja, um mundo onde há diferenças sociais, e ainda grande parte da população não tem acesso à internet. Mas a internet, com todas as suas possibilidades, pode funcionar como um acelerador desse processo de mudança. Nenhuma outra mídia foi tão democrática quanto essa.
Lembro um amigo da area de TI, no tempo dos Dinossauros, que era inteiramente contra a abertura a reserva de mercado. Seria o fim das empresas de informatica no Brasil !
Sejamos sempre otimistas !
Quando conseguimos colocar informações de um orgão publico na Rede Mundial de Computadores – Internet estamos abrindo uma porta para a Democracia.
Parabéns pelo seu Ponto de Vista. Concordo plenamente com você.
Hélio,
Concordo em gênero número e grau com os seus argumentos. De fato estamos diante um processo de mudança lento e gradual. Como você, também tenho uma visão otimista sobre o futuro da comunicação digital.
Parabéns pela lucidez e pelo brilhantismo do seu argumento!
O fato a se discutir que as mudanças no processo político costumam ser ciclicas de acordo com o perfil dos governantes. Há casos que um político antenado com a web consegue vencer e impor mudanças conceituais. Ora estas mudanças se perpetuam, ora não se consolidam em gestões vindouras, principalmente se o novo gestor não for ligado com a web. Mas é inegável que a discussão de política na web avançou muito, apesar de que na minha opinião estes avanços ainda são muito timidos perto do que poderia acontecer.
Realmente o Google e seu sistema de buscas quantitativo, e não qualitativo randômico, gera um mainstream danado, em pouco se diferenciando da televisão e mídia convencional.
Eu mesmo já estou desistindo do Google, quase nunca acho o que quero, principalmente agora que surgiu está moda de “otimização para motores de busca (SEO)”.
A internet é uma ferramenta. Da mesma forma que jornalismo digital é a prática do jornalismo em ambiente digital, a chamada “democracia digital” nada mais é do que a prática da democracia em ambiente digital.
O que muda neste caso são as ferramentas que a internet propicia à participação e à gestão do conhecimento, resgatando características fundamentais da democracia e que se perderam com o crescimento exponencial das sociedades (o sistema representativo que utilizamos hoje é reflexo da impossibilidade física de todos tomarem parte, a um mesmo tempo, do processo decisório – como fazer votações diárias com dezenas de milhões de interessados?).
Essa democracia representativa que conhecemos hoje é, portanto, uma resposta aos obstáculos impostos pelo tamanho e complexidade das sociedades que adotaram esse modelo de governo. O digital dá à democracia a possibilidade de tapar as brechas e, consequentemente, corrigir as falhas criadas por esse crescimento.
Prezados(as)
A democracia digital é uma verdade, é só acompanhar nos diversos
portais de notícias, quase sempre que tem uma reportagem, já existe um canal para o leitor participar.
Agora, democracia digital como ferramenta de tomada de decisão pelos
parlamentares, estamos muito longe de ver algo assim, nem se quer
existe uma política de Estado para atrair os cidadãos e cidadãs para
os devidos portais das casas legislativas.
No meu entender as casas legislativas e o Estado não tem interesse em democratizar a decisão do parlamentar. Temos um PL como exemplo
recente, que é a Campanha Ficha Limpa, com 1.300.000 de assinaturas e está parado. Agora, as entidades que patrocinaram a campanha está
fazendo outra para que a sociedade civil pressione os parlamentares
para que, pelo menos, comecem os trabalhos….é uma piada.
A democracia digital parlamentar será remendada pela realidade do
poder de TODOS os partidos, que não evoluem e tratam os seus
interesses em detrimento do interesse público.
Para que a democracia digital, direta, participativa ou colaborativa
seja, de verdade, implementada será preciso mexer na Constituição, e
no meu humildade entender, só através de novos partidos que tem como
modelo de gestão a democracia direta para tomada de decisão
legislativa.
Anilton Oliveira
São Paulo-SP
Olá Hélio,
Legal sua provocação.
Não vou expor opinião quanto ao livro, pois não o li, irei me referir apenas às questões destacadas no texto.
1) Para ser válida a afirmativa de que a Internet não amplia o discurso político entre os cidadãos, é preciso definir o que vem a ser discurso político. Para se engajar o cidadão precisa mesmo conhecer o cenário macro político nacional? A percepção de que os direitos básicos dos cidadãos (saúde, segurança, transporte, educação etc.) não atendem às suas expectativas já não seriam suficientes para provocar melhorias? A compreensão do cenário político nacional e internacional é para poucos, e acredito que sempre será assim. Os cidadãos já contribuem muito apenas desejando e lutando por seu bem estar em convívio com os demais. Para isso é preciso conhecer seus direitos e ter educação mínima para reivindicar, expor opinião, se associar.
2) Precisamos de uma referência. Ao afirmar que a Internet é um ambiente mais democrático, precisamos saber: mais democrático com relação a que? Entendo que seja mais democrático que as outras mídias (TV, rádio, jornais e revistas), pois possibilita o diálogo. Também possibilita que muitos pessoas sem recursos se manifeste, crie seus próprios meios de expressão. Possibilita que as pessoas se reúnam em torno de idéias e interesses comuns, e que estas opiniões ganhem grande visibilidade. Esta é a ótica de esfera pública defendida por Habermas antes do advento da mídia de massa e da propaganda, quando segundo o autor, teria perdido suas funções primárias de discutir as questões do mundo da vida. Habermas defende que conversas cotidianas nas antigas praças públicas burguesas resolviam questões políticas de ordem maior.
3) Visão Global versus Visão Local. Vamos lembrar os estudos de Jane Jacobs, e mais recentemente Steven Johnson, que defendem que uma comunidade desenvolve um grau de inteligência superior, mesmo que os membros não tenham uma visão global, tampouco política. Os fluxos de informação local que correm nos espaços públicos – acumulados – dão às comunidades uma inteligência incapaz de ser percebida no nível do indivíduo. Para isto basta que os membros recorram à interação, basta que haja comunicação. Jacobs defende a importância das calçadas no desenvolvimento de uma cidade. Então, num mundo que se comunica cada vez mais pela via interconectada, quais seriam as “calçadas digitais”? Claramente seriam as comunidades online, redes sociais e demais espaços de interação.
Serviços como Patient Opinion e My Bike Lane (que nem é uma iniciativa governamental, mas de um único indivíduo) são ótimos exemplos de que as redes podem aumentar o poder cívico dos indivíduos. O motivo? Mais transparência, fácil participação e grande alcance e visibilidade.
4) Exclusão digital ou hegemonia das classes de maior renda na web. É um fato. Assim como a televisão em cores na década de 60 era restrita a poucas famílias, e em pouco mais de 10 anos se difundiu completamente. Hoje mesmo moradores de rua possuem celular. É questão de tempo até que o computador e/ou o acesso à web chegue às classes menos favorecidas. Isso não significa que as mudanças positivas provocadas por um mundo mais interconectado não sejam reais.
Não é a tecnologia, muito menos um protocolo, que trazem os verdadeiros benefícios. Mas o grande aumento de acesso à informação, a multiplicação da produção e exposição de conteúdo, e a facilidade de conexão entre indivíduos, que transformam a sociedade em algo melhor.
Abraços.
[...] Neste post, Hélio Teixeira faz uma crítica constestando o livro. Mesmo sem ter lido o livro, vou entrar no coro contra os argumentos expostos resumidos pelo Hélio. [...]
Oi Leandro,
Lendo atentamente os seus argumentos. Vejo que temos apenas concordâncias e quase nehuma discordância.
Não contesto todas as afirmações e teses defendidas no livro, e deixo isso claro no post. Em verdade, contesto apesnas dois aspectos do livro (1)o cenário de “terra arrasada” que o autor constrói no livro (2)e o excesso de pessimismo do autor.
É óbvio que o que temos hoje ainda está muito longe daquilo que poderíamos considerar ideal. Porém, não há como negar que o cenário atual é muito melhor do que o que tínhamos uma década atrás.
Não aceito o mundo em preto e branco que o autor em alguns momentos descreve. Acredito que estamos em meio a uma maratona não em uma corrida de 100 metros. Estamos em meio a um processo. Lento, talvez, porém, em constante evolução…
Talvez a velocidade e/ou a direção que as coisas estão seguindo não sejam as ideais (de certo não é!), mas não posso deixar de enxergar que estamos caminhando…
Grande abraço e parabéns pelo brilhantismo do seu argumento.
Hélio Teixeira